sábado, 10 de abril de 2010

O BICO, A DIGNIDADE E A SEGURANÇA.

TRIBUNA DO POVO:
O “bico”, a dignidade e a segurança
Jornal Tribuna do Povo

reportagem@tribunadopovo.com.br
A trágica morte do soldado da Polícia Militar Sérgio Delfino Paina, ocorrida na semana passada durante assalto a uma subestação de energia elétrica na zona rural de Araras, expõe a cruel realidade dos bicos realizados por pms como forma de complemetar a renda familiar, prática tão comum quanto negada publicamente pela própria corporação e pelo Estado. Um guarda municipal que fazia bico no local também foi agredido pelos bandidos.
Até por serem oficialmente negados, os bicos feitos por pms não têm estatísticas oficiais, mas a realidade mostra que bem mais de 70% prestam serviço – a maioria como segurança particular – em empresas, clubes, associações de classe, boates e outros estabelecimentos.
Dados da Corregedoria da PM sobre o número de policiais mortos em folga mostram que só no primeiro trimestre de 2009, 16 pms perderam a vida estando fora dos turnos de trabalho na corporação, número cerca de 55% maior do que o registrado no mesmo período do ano anterior, quando 11 pms morreram enquanto faziam bicos.
A baixa remuneração dos pms paulistas – em torno de R$ 2 mil mensais brutos – pode não ser a única, mas sem dúvida é a principal justificativa dada pelos próprios para aceitarem os famigerados bicos. E é também a razão pela qual os agenciadores desses bicos na área de segurança privada se vêm estimulados a continuar recrutando pms para o ‘serviço’: pms (e gms) ganham pouco e sujeitam-se a ganhar mal também nos bicos. Aceitam expor-se a situações de risco sem qualquer direito assegurado. Custam menos do que seguranças particulares registrados em carteira. E vêm com uma bagagem técnica e intelectual altamente refinada, financiada por todos nós cidadãos pagadores de impostos. São a mão-de-obra sub remunerada mais qualificada do mercado, com todo o conhecimento científico acumulado em longos treinamentos bancados com dinheiro público. A serviço de empresas privadas.
Imaginemos uma situação oposta, na qual pms e gms ganhassem bem – o que se paga para pms no Distrito Federal, por exemplo, cerca de R$ 4 mil mensais. Um servidor com essa remuneração, bem menos pressionado pelas necessidades de um pai de família, pensaria muito mais antes de sujeitar-se a fazer a segurança de um local ermo, sem qualquer equipamento de proteção, em sua hora de descanso e ainda arriscando-se a perder direitos funcionais. Se pensasse em aceitar o bico, certamente o faria por muito dinheiro, o que o tornaria simplesmente “desinteressante” para o agenciador, que teria de reduzir muito sua margem de lucro para conseguir contratos de segurança privada. Aí perderia a graça.
Mas também na segurança a sociedade cultiva a cultura individualista e não cobra do Estado, dos eleitos pelo voto direto, uma remuneração justa para os policiais, condição decisiva para uma segurança mais eficiente para todos, que teríamos pms valorizados e motivados nas ruas.
Achamos mais cômodo eletrificar cercas da casa, instalar câmeras ou morar em condomínios, e esquecemos que já pagamos elevados impostos para a nossa segurança. A mesma lógica individualista e perversa nos faz silenciar diante da baixa remuneração dos professores da escola pública, (colocamos nossos filhos em instituições particulares e pronto) diante do péssimo atendimento nos postos de saúde (fazemos um plano privado e ponto final), e assim por diante.
É a sociedade do “eu”, do “meu” problema resolvido, em detrimento do “nós”, daquilo que precisa funcionar e precisa funcionar bem, mas para todos. Assim vai ficar difícil.
JUNTOS SOMOS FORTES!
PAULO RICARDO PAÚL
CORONEL DE POLÍCIA
Ex-CORREGEDOR INTERNO

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