ÚLTIMO SEGUNDO - IG. PMs premeditaram morte da juíza, usaram carro sem GPS e desligaram celulares. Medidas pretendiam dificultar a identificação dos policiais e vinculá-los ao crimeRaphael Gomide, iG Rio de Janeiro.
Os três policiais militares presos suspeitos da morte da juíza Patrícia Lourival Acioli usaram expedientes para dificultar a identificação no planejamento e execução do crime, que demonstram premeditação no caso. De acordo com a Polícia Civil, eles mataram Patrícia após saberem pela advogada que teriam a prisão decretada, mas acreditando, equivocadamente, que a medida ainda não estava oficializada.
Investigados em um caso de auto de resistência, sob ameaça de prisão, o tenente Daniel dos Santos Benitez e os cabos Sérgio Costa Júnior e Jefferson de Araújo passaram na casa da magistrada um mês antes do assassinato dela, para fazer o levantamento do local, em uma viatura sem GPS, de outro batalhão.
Após saberem que teriam a prisão decretada, no dia do assassinato, eles foram ao Fórum de São Gonçalo à noite, como mostrou o rastreamento das antenas de seus celulares, feito pela polícia. Momentos depois, os três desligaram os seus aparelhos, para dificultar eventual localização. Esse procedimento era completamente fora do padrão dos PMs.
“Eles estavam esperando ela sair, no fórum, a antena captou. O celular deles nunca era desligado nessa hora”, disse o presidente da Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (Amaerj), desembargador Antônio Siqueira, que acompanhou as investigações.
Um mês antes, o grupo de PMs já tinha dado os passos preparatórios da execução. O oficial e os dois praças, do 7º BPM (São Gonçalo), usaram um dos poucos carros sem GPS do batalhão de Niterói (12º BPM). O objetivo de usar esse automóvel era que não pudessem ser rastreados. A medida sugere que possam ter tido cumplicidade de PMs de Niterói. A visita para reconhecimento foi flagrada por câmeras de segurança de um condomínio vizinho.
Para o presidente do Tribunal de Justiça, Manoel Alberto Rebêlo dos Santos, uma eventual escolta não teria impedido o homicídio. “Não faria diferença se ela tivesse escolta ou não. A escolta infelizmente previne, mas não impede. Temos exemplos do Papa e do presidente dos EUA Ronald Reagan, que não morreu, mas sofreu atentado. Pode evitar até certo ponto, mas não pode assegurar 100%".
Segundo ele, as circunstâncias da morte não tiveram relação com ameaças anteriores. “Não tem nenhuma relação com as ameaças anteriores. A expectativa é que se matassem a juíza talvez algum outro juiz não determinasse a prisão deles”, disse Rebêlo dos Santos.
“A partir desse fato, a questão da segurança me preocupa ainda mais, porque foi um ataque que poderia acontecer a qualquer magistrado, porque um réu não se conforma com a prisão. É uma situação que não podemos prever onde e como aconteceria”, disse Antônio Siqueira.
COMENTO:
Eu tenho o hábito de não criticar ou elogiar investigações que não conheço.
Não corro esse risco, não ganho para fazer tais interpretações, assim sendo, não tenho a necessidade de me expor ao ridículo.
Ao longo dos meus mais de trinta anos de serviço na Polícia Militar, um terço na área investigativa, me deparei com brilhantes investigações e com outras péssimas, tanto desenvolvidas na Polícia Militar, quanto na Polícia Civil. Algumas delas inclusive nitidamente direcionadas para que alcancem os resultados desejados e não a verdade dos fatos.
Não conheço uma linha da investigação sobre a morte da juíza Patrícia Acioli, logo, não posso escrever nada sobre ela. Entretanto, posso escrever sobre a notícia acima a respeito das investigações e deixo claro que não gostei do que li.
Ratifico, não gostei do noticiado, nada sei sobre o Inquérito Policial.
Longe de sair em defesa dos acusados, o noticiado revela uma investigação com resultados cômodos, extremamente adequados.
Primeiro, os acusados são PMs, categoria que a juíza prendeu em abundância na sua brilhante carreira, logo, os acusados sendo PMs de pronto já teriam motivos para praticar o crime. A própria opinião pública estava esperando que PMs fossem apontados como autores, portanto, os PMs acusados caem como como uma luva.
E qual seria o motivo do crime, segundo o noticiado:"De acordo com a Polícia Civil, eles mataram Patrícia após saberem pela advogada que teriam a prisão decretada, mas acreditando, equivocadamente, que a medida ainda não estava oficializada".
(...)
"A expectativa é que se matassem a juíza talvez algum outro juiz não determinasse a prisão deles”, disse Rebêlo dos Santos".
Nem mesmo um recruta com meia hora de Polícia Militar acredita que se matar um juiz que vai decretar a sua prisão, o processo irá sofrer uma reversão e o novo juiz não decretará mais a sua prisão.
Um dos acusados é Oficial, sendo pouco crível que ele teria tal interpretação, agindo com tal motivação.
A respeito da preparação para o crime, a notícia dá conta:"Investigados em um caso de auto de resistência, sob ameaça de prisão, o tenente Daniel dos Santos Benitez e os cabos Sérgio Costa Júnior e Jefferson de Araújo passaram na casa da magistrada um mês antes do assassinato dela, para fazer o levantamento do local, em uma viatura sem GPS, de outro batalhão".
Por que os PMs usariam uma viatura da PMERJ para fazer tal levantamento?
Para não serem rastreados?
Poderiam usar qualquer veículo, inclusive uma moto, assim não seriam rastreados.
Por que terem o trabalho de conseguir uma viatura sem GPS de outro batalhão, aumentando a exposição deles e as suspeitas sobre eles?
Repito, não conheço a investigação, isso pode ter ocorrido, como a notícia dá conta (filmagem), mas contraria inteiramente a lógica.
Além disso, fazer um levantamento com um mês de antecedência é burrice. Isso seria um erro grosseiro no planejamento para o crime, coisa de iniciante. Todo cenário pode ser alterado nesse espaço de tempo. Por exemplo, novos recursos humanos e materiais de segurança poderiam ter sido implantados no local onde residia a juíza.
Contraria por completo o bom senso, mais uma vez.
No tocante aos celulares, vejo esse como o dado mais robusto em termos de acusação no noticiado. Sem dúvida, a ERB permite a localização aproximada do celular e o fato de que teriam desligado os celulares, sinaliza que eles teriam conhecimento sobre a possibilidade de localização nos deslocamentos, em tese.
"Eles estavam esperando ela sair, no fórum, a antena captou. O celular deles nunca era desligado nessa hora”, disse o presidente da Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (Amaerj), desembargador Antônio Siqueira, que acompanhou as investigações".
Nesse caso, os acusados teriam cometido outro erro grosseiro, ou seja, eles próprios terem seguido a magistrada e para tal terem se aproximado tanto do fórum. A dúvida que fica nessa parte da versão é por que não desligaram os celulares antes de se aproximarem do fórum? Considerando que sabiam da possibilidade de serem rastreados, tanto que teriam desligado no fórum, por que não fizeram isso antes?
Por derradeiro, o mais cômodo, uma explicação que atenua a responsabilidade dos que tiraram a escolta da juíza assassinada:
"Para o presidente do Tribunal de Justiça, Manoel Alberto Rebêlo dos Santos, uma eventual escolta não teria impedido o homicídio. “Não faria diferença se ela tivesse escolta ou não. A escolta infelizmente previne, mas não impede. Temos exemplos do Papa e do presidente dos EUA Ronald Reagan, que não morreu, mas sofreu atentado. Pode evitar até certo ponto, mas não pode assegurar 100%"".
Bem, tenho que discordar completamente do noticiado, a retirada da segurança da juíza foi uma causa concorrente para o crime, não resta qualquer dúvida. Caso a juíza tivesse um único segurança, esse seria um obstáculo para a consecução do assassinato.
Por derradeiro, não conheço uma linha do inquérito policial da Delegacia de Homicídios, mas pelo noticiado ele chegou a resultados extremamente cômodos, não resta dúvida.
JUNTOS SOMOS FORTES!
PAULO RICARDO PAÚL
PROFESSOR E CORONEL
Ex-CORREGEDOR INTERNO