Violência
'Ontem perdi meu amigo. E amanhã?'
Publicada em 04/11/2009 às 12h22m.
'Ontem perdi meu amigo. E amanhã?'
Publicada em 04/11/2009 às 12h22m.
Artigo da leitora Virgínia Heine.
Dia dois de novembro de 2009, um dia de finados atípico: ao invés da chuva, o sol veio brindar o feriado carioca. Praia, ar livre, bicicletas, biquínis e sungas. Um típico dia de alegria de verão. Verão que, em geral, está sempre presente. Já a alegria, só a folclórica, porque a real, esta, anda distante.
O mito da alegria, do estar de bem com a vida, decantada aos quatro ventos, a respeito do estado de espírito do brasileiro, em especial do carioca, anda, há muito tempo, trancado atrás das grades das casas e apartamentos da cidade. O medo, a apatia, ou a agressividade quase cega, fazem parte hoje do cotidiano da vida no Rio. E, de quebra, a descrença veio carimbar a quase ausência absoluta de esperança em algum tipo de mudança.
O que mais escuto hoje é que "não tem mais jeito, o Brasil não vai mudar". Até pouco tempo, costumava-se dizer que "só jogando uma bomba no país para modificá-lo e aos hábitos da população". Hoje, até a bomba foi esquecida, talvez porque não se acredite nem mais que ela fosse capaz de transformar essa realidade tosca, injusta, inconsequente. Hoje somos ou apáticos ou brutais.
Ontem o Rio de Janeiro de Sérgio Cabral, de Eduardo Paes, mas também dos tradicionais Garotinhos e Garotinhas, do César (não o imperador romano, mas o nosso, que deveria estar num spa judiciário), do Conde, de Brizola e Alencar, ontem esse Rio assistiu passivo à morte de um carioca. Um carioca que trabalhou, que teve amigos, filhos, família. Um carioca que era meu amigo e que foi embora, como tantos outros cariocas ou não, vítimas da cidade, vítimas do estado, vítimas do país. Um país que deita sobre um mito roto, velho e desbotado, de uma alegria imaginária, dos carnavais já pouco criativos, dos sambas repetitivos, das balas que se perdem nos corpos de sua população.
Ontem perdi um amigo. Um amigo querido, que pouco via, com quem pouco convivi, mas que era um amigo. E, como eu, tantos perdemos amigos, pais, mães, filhos, maridos, esposas, todos vítimas da falta de energia em investir num país de verdade, daqueles em que, apesar das vilezas humanas, são capazes de dedicar criatividade e saúde suficientes para se criar uma sociedade menos bárbara.
Somos uma sociedade desigual, fundada na desigualdade e mantida aí, na injusta desigualdade. E, no meio da corrida pela sobrevivência, que vira manutenção da ganância, que se torna extração de vantagens a qualquer preço, vivemos nesse cabo de guerra social. Todos brincam de explorar a todos. Os mais ricos querem explorar os mais pobres que querem explorar os mais ricos. E vivemos assim, pensando que gostamos de sol, cerveja e futebol, alegres até a primeira oportunidade de obter uma saída individual para nossos problemas pessoais.
Ontem perdi um amigo, vítima do escárnio dos políticos vulgares, de sorrisos falsos, criadores de falsas polêmicas engana-trouxa. Não seria nem preciso recorrer à informação da mídia para que constatássemos a mentira refletida no tom de voz dessas criaturas eleitas por nós, obrigatoriamente. Sim, porque, por aqui, somos obrigados, sem questionamento, a exercer um direito: o do voto.
Ontem perdi um amigo, vítima do Rio e do Brasil. Vítima de uma sociedade mixa que se contenta com os concursos públicos, para conquistar de uma vez por todas um encosto no estado-terra-de-ninguém. Falamos tanto de samba, alegria e carnavais, mas vivemos numa paquera mórbida com a morte, não só a do outro, mas a nossa própria.
Há algum tempo, enquanto dirigia, era capaz de enfrentar, com um pouco mais de vigor, um carro mais agressivo que insistisse em levar alguma vantagem de meio minuto, numa fila para pegar uma rua qualquer. Pensava que o motorista daquele carro preservaria, nem que não fosse sua vida, ao menos a integridade de seu carro. Hoje os carros são "jogados" sobre os outros carros. Bater ou não, pouco importa. Mas o que vale mesmo é obter aquela vantagem de meio minuto.
Ontem perdi meu amigo, vítima do Rio. Ontem perdi meu amigo, vítima do Brasil. Tantos outros amigos, de tantas outras pessoas, são mortos a cada minuto. Sempre vítimas de suas cidades, de seus políticos, de seus juízes cegos e poderosos (uma dúvida: seriam os juízes aparentados de Deus?), vítimas de sua própria covardia coletiva, de sua inércia depressiva.
Enquanto mais um brasileiro morre, vítima da violência de toda ordem, de fome, de falta de dignidade, de desilusão, os Lulas, as Dilmas, os Sarneys, os oposicionistas inertes e estranhamente apáticos, discutem as CPIs risíveis, quem está tramando contra quem; e viajam vendendo um país de mentira, próspero e pacato. Enquanto nosso caro presidente, ex-metalúrgico, discursa nos palanques antecipados, desobedecendo a lei eleitoral, numa gramática torpe para angariar mais companheiros incautos, mais brasileiros morrem. No jogo do contente dos contrários, pisa em solos estrangeiros, visita reis e rainhas, diminui distâncias supersônicas de aviões confortáveis e novinhos em folha, mas se gaba de pensar nos "pobres" pobres. E tudo sempre sorrindo de contente. A última cena dantesca que presenciamos foi o trio feliz: Lula, Cabral e Paes, vendendo um Brasil da carochinha, ao som de muito samba, é claro, afinal "isso é Brasil!. E Brasil é alegria!".
Ontem perdi meu amigo. E amanhã? Ontem perdi meu amigo, vítima de uma doença chamada Brasil.
Dia dois de novembro de 2009, um dia de finados atípico: ao invés da chuva, o sol veio brindar o feriado carioca. Praia, ar livre, bicicletas, biquínis e sungas. Um típico dia de alegria de verão. Verão que, em geral, está sempre presente. Já a alegria, só a folclórica, porque a real, esta, anda distante.
O mito da alegria, do estar de bem com a vida, decantada aos quatro ventos, a respeito do estado de espírito do brasileiro, em especial do carioca, anda, há muito tempo, trancado atrás das grades das casas e apartamentos da cidade. O medo, a apatia, ou a agressividade quase cega, fazem parte hoje do cotidiano da vida no Rio. E, de quebra, a descrença veio carimbar a quase ausência absoluta de esperança em algum tipo de mudança.
O que mais escuto hoje é que "não tem mais jeito, o Brasil não vai mudar". Até pouco tempo, costumava-se dizer que "só jogando uma bomba no país para modificá-lo e aos hábitos da população". Hoje, até a bomba foi esquecida, talvez porque não se acredite nem mais que ela fosse capaz de transformar essa realidade tosca, injusta, inconsequente. Hoje somos ou apáticos ou brutais.
Ontem o Rio de Janeiro de Sérgio Cabral, de Eduardo Paes, mas também dos tradicionais Garotinhos e Garotinhas, do César (não o imperador romano, mas o nosso, que deveria estar num spa judiciário), do Conde, de Brizola e Alencar, ontem esse Rio assistiu passivo à morte de um carioca. Um carioca que trabalhou, que teve amigos, filhos, família. Um carioca que era meu amigo e que foi embora, como tantos outros cariocas ou não, vítimas da cidade, vítimas do estado, vítimas do país. Um país que deita sobre um mito roto, velho e desbotado, de uma alegria imaginária, dos carnavais já pouco criativos, dos sambas repetitivos, das balas que se perdem nos corpos de sua população.
Ontem perdi um amigo. Um amigo querido, que pouco via, com quem pouco convivi, mas que era um amigo. E, como eu, tantos perdemos amigos, pais, mães, filhos, maridos, esposas, todos vítimas da falta de energia em investir num país de verdade, daqueles em que, apesar das vilezas humanas, são capazes de dedicar criatividade e saúde suficientes para se criar uma sociedade menos bárbara.
Somos uma sociedade desigual, fundada na desigualdade e mantida aí, na injusta desigualdade. E, no meio da corrida pela sobrevivência, que vira manutenção da ganância, que se torna extração de vantagens a qualquer preço, vivemos nesse cabo de guerra social. Todos brincam de explorar a todos. Os mais ricos querem explorar os mais pobres que querem explorar os mais ricos. E vivemos assim, pensando que gostamos de sol, cerveja e futebol, alegres até a primeira oportunidade de obter uma saída individual para nossos problemas pessoais.
Ontem perdi um amigo, vítima do escárnio dos políticos vulgares, de sorrisos falsos, criadores de falsas polêmicas engana-trouxa. Não seria nem preciso recorrer à informação da mídia para que constatássemos a mentira refletida no tom de voz dessas criaturas eleitas por nós, obrigatoriamente. Sim, porque, por aqui, somos obrigados, sem questionamento, a exercer um direito: o do voto.
Ontem perdi um amigo, vítima do Rio e do Brasil. Vítima de uma sociedade mixa que se contenta com os concursos públicos, para conquistar de uma vez por todas um encosto no estado-terra-de-ninguém. Falamos tanto de samba, alegria e carnavais, mas vivemos numa paquera mórbida com a morte, não só a do outro, mas a nossa própria.
Há algum tempo, enquanto dirigia, era capaz de enfrentar, com um pouco mais de vigor, um carro mais agressivo que insistisse em levar alguma vantagem de meio minuto, numa fila para pegar uma rua qualquer. Pensava que o motorista daquele carro preservaria, nem que não fosse sua vida, ao menos a integridade de seu carro. Hoje os carros são "jogados" sobre os outros carros. Bater ou não, pouco importa. Mas o que vale mesmo é obter aquela vantagem de meio minuto.
Ontem perdi meu amigo, vítima do Rio. Ontem perdi meu amigo, vítima do Brasil. Tantos outros amigos, de tantas outras pessoas, são mortos a cada minuto. Sempre vítimas de suas cidades, de seus políticos, de seus juízes cegos e poderosos (uma dúvida: seriam os juízes aparentados de Deus?), vítimas de sua própria covardia coletiva, de sua inércia depressiva.
Enquanto mais um brasileiro morre, vítima da violência de toda ordem, de fome, de falta de dignidade, de desilusão, os Lulas, as Dilmas, os Sarneys, os oposicionistas inertes e estranhamente apáticos, discutem as CPIs risíveis, quem está tramando contra quem; e viajam vendendo um país de mentira, próspero e pacato. Enquanto nosso caro presidente, ex-metalúrgico, discursa nos palanques antecipados, desobedecendo a lei eleitoral, numa gramática torpe para angariar mais companheiros incautos, mais brasileiros morrem. No jogo do contente dos contrários, pisa em solos estrangeiros, visita reis e rainhas, diminui distâncias supersônicas de aviões confortáveis e novinhos em folha, mas se gaba de pensar nos "pobres" pobres. E tudo sempre sorrindo de contente. A última cena dantesca que presenciamos foi o trio feliz: Lula, Cabral e Paes, vendendo um Brasil da carochinha, ao som de muito samba, é claro, afinal "isso é Brasil!. E Brasil é alegria!".
Ontem perdi meu amigo. E amanhã? Ontem perdi meu amigo, vítima de uma doença chamada Brasil.
Este artigo foi escrito por uma leitora do Globo.
JUNTOS SOMOS FORTES!PAULO RICARDO PAÚL
CORONEL DE POLÍCIA
Ex-CORREGEDOR INTERNO

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