O GLOBO - 09 DE MAIO DE 2006.
O BOPE VAI INVESTIGAR.
O campo das idéias é terreno de lutas que freqüentemente apresenta ruidosas batalhas entre contendores, movidos por convicções que se apresentam como bússola orientadora de suas inclinações. Muitas vezes, os provocadores de uma discussão, da qual se é inevitável enfrentar, esperam que se lhes mova campanha difamadora, com intuito de faturarem com a agressão, expondo-se vítimas da injúria.
Todavia, analisar-lhes as idéias, e apontar paradoxos e incongruências no que dizem ou promovem, é fato legítimo, pois a discussão do pensamento é sempre preferível ante fazê-lo sobre o pensador.
Assim, na hipótese de lançar anátema sobre os autores do livro “A Elite da Tropa”, obra que pretende, segundo os escritores, revelar, na forma de ficção, toda sorte de violações cometidas pelos integrantes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) durante um período de sua existência, convém analisar-lhes os objetivos explicitados; avaliar, também, o meio escolhido e projetar os resultados possíveis do empreendimento.
Vejamos:
Na entrevista concedida ao jornal O GLOBO do dia 28 de abril — aliás, espetacular espaço de duas páginas completas — os autores se permitem não apenas adiantar trechos do livro, mas radiografar o Bope, fazendo uma descrição crítica de sua “atuação equivocada”, ideologizada e formadora de uma mentalidade, ora causa, ora conseqüência, da identificação do grupo como “tropa de guerra”. E reforçam, deixando claro que se trata de um apanhado de “histórias reais que teriam acontecido”, misturadas, “alteradas e recombinadas”, recolhidas das “experiências de dois dos autores” e colegas não citados.
A entrevista se dedica, também, a apresentá-los com suas credenciais, e aí ficamos sabendo que dois são capitães da PM, que serviram, ao longo de vários anos, no Bope, comandando tropa nas operações de intervenção, em áreas de forte presença do narcotráfico. O outro, sociólogo que experimentou atuar diretamente na Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, no final da década de noventa e início de dois mil.
Embora o livro não seja anunciado como produto de trabalho científico, com os rigores que lhes seriam exigidos, caso tivesse tal pretensão, subliminarmente é apresentado como tal, pois, conhecido como “especialista em segurança pública”, célebre pesquisador de renome internacional que não arriscaria sua credibilidade em exposições “achistas”, levianas, o professor, co-autor (da obra), ao declarar que “O Bope é...” e não apenas “O Livro é...”, naturalmente empresta chancela de autoridade no conhecimento de fatos, apresentados por ficção na literatura supra-real.
E então, ao garantirem que tudo está difuso e misturado, a fim de se impedir a identificação das pessoas, promovem um incômodo que aos poucos se acentua no leitor mais atento, porque, com efeito, aquilo que inicialmente parece algo positivo, com ares de posicionamento ético, e digno de aplausos de aprovação, estanca em perguntas que são absolutamente óbvias: “Será que os dois capitães assistiram a quaisquer daquelas coisas horrendas? Será que não são eles mesmos os criminosos? A confissão escamoteada e remunerada (o livro deverá render muito) os isenta dos crimes que podem ter cometido?" ( * )
Ora, se tudo isso for verdade, há débitos com a lei que precisam ser resgatados. Não será a publicação do livro escandaloso que lhes promoverá redenção. Irá render-lhes, certamente, consagração e festejos nos meios intelectuais, mas a injustiça se apresentará ainda mais desafiadora; afinal, que dizer aos familiares das vítimas? Como lhes explicar que criminosos por ação ou omissão estão vindo a público expor as imolações e o assassínio de seus parentes e ainda irão lucrar muito com isso?
É bem certo que ninguém é obrigado a produzir prova contra si, e não creio que os dois policiais escritores se apresentem ao Ministério Público voluntariamente, nem mesmo para delação premiada. Caberá ao Bope colaborar para a elucidação dos fatos, desmisturando-os, descombinando-os e descobrindo-lhes autoria, para que “léxico e sintaxe”, como nas palavras do erudito sociólogo, não sirvam somente para escandalizar uns e enriquecer outros. Para isso, o Batalhão espera contar com a colaboração dos próprios autores e já adotou providências iniciando a recuperação dos registros das intervenções dos dois oficiais, durante todo o período que estiveram entre seus “homens de preto”.
E, por fim, há algo que eles podem fazer para não amargar a perda da respeitabilidade. Algo que não afastará, certamente, as sombras do passado que talvez incomodem os capitães, como “demônios do não esquecimento”, os quais buscam exorcizar na catarse remunerada. Basta que façam doação de tudo que arrecadarem com a venda do livro às famílias que tiveram parentes mortos no período que eles serviram ao Bope. As Ongs dedicadas aos direitos humanos podem ajudar a encontrá-las.
Talvez, assim, “A Elite da Tropa” poderá ser compreendida como obra séria, e não como irresponsável, mas estratégica alavanca para visibilidade de candidatos, num ano eleitoral.
MARIO SERGIO DE BRITO DUARTE é comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro.
Todavia, analisar-lhes as idéias, e apontar paradoxos e incongruências no que dizem ou promovem, é fato legítimo, pois a discussão do pensamento é sempre preferível ante fazê-lo sobre o pensador.
Assim, na hipótese de lançar anátema sobre os autores do livro “A Elite da Tropa”, obra que pretende, segundo os escritores, revelar, na forma de ficção, toda sorte de violações cometidas pelos integrantes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) durante um período de sua existência, convém analisar-lhes os objetivos explicitados; avaliar, também, o meio escolhido e projetar os resultados possíveis do empreendimento.
Vejamos:
Na entrevista concedida ao jornal O GLOBO do dia 28 de abril — aliás, espetacular espaço de duas páginas completas — os autores se permitem não apenas adiantar trechos do livro, mas radiografar o Bope, fazendo uma descrição crítica de sua “atuação equivocada”, ideologizada e formadora de uma mentalidade, ora causa, ora conseqüência, da identificação do grupo como “tropa de guerra”. E reforçam, deixando claro que se trata de um apanhado de “histórias reais que teriam acontecido”, misturadas, “alteradas e recombinadas”, recolhidas das “experiências de dois dos autores” e colegas não citados.
A entrevista se dedica, também, a apresentá-los com suas credenciais, e aí ficamos sabendo que dois são capitães da PM, que serviram, ao longo de vários anos, no Bope, comandando tropa nas operações de intervenção, em áreas de forte presença do narcotráfico. O outro, sociólogo que experimentou atuar diretamente na Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, no final da década de noventa e início de dois mil.
Embora o livro não seja anunciado como produto de trabalho científico, com os rigores que lhes seriam exigidos, caso tivesse tal pretensão, subliminarmente é apresentado como tal, pois, conhecido como “especialista em segurança pública”, célebre pesquisador de renome internacional que não arriscaria sua credibilidade em exposições “achistas”, levianas, o professor, co-autor (da obra), ao declarar que “O Bope é...” e não apenas “O Livro é...”, naturalmente empresta chancela de autoridade no conhecimento de fatos, apresentados por ficção na literatura supra-real.
E então, ao garantirem que tudo está difuso e misturado, a fim de se impedir a identificação das pessoas, promovem um incômodo que aos poucos se acentua no leitor mais atento, porque, com efeito, aquilo que inicialmente parece algo positivo, com ares de posicionamento ético, e digno de aplausos de aprovação, estanca em perguntas que são absolutamente óbvias: “Será que os dois capitães assistiram a quaisquer daquelas coisas horrendas? Será que não são eles mesmos os criminosos? A confissão escamoteada e remunerada (o livro deverá render muito) os isenta dos crimes que podem ter cometido?" ( * )
Ora, se tudo isso for verdade, há débitos com a lei que precisam ser resgatados. Não será a publicação do livro escandaloso que lhes promoverá redenção. Irá render-lhes, certamente, consagração e festejos nos meios intelectuais, mas a injustiça se apresentará ainda mais desafiadora; afinal, que dizer aos familiares das vítimas? Como lhes explicar que criminosos por ação ou omissão estão vindo a público expor as imolações e o assassínio de seus parentes e ainda irão lucrar muito com isso?
É bem certo que ninguém é obrigado a produzir prova contra si, e não creio que os dois policiais escritores se apresentem ao Ministério Público voluntariamente, nem mesmo para delação premiada. Caberá ao Bope colaborar para a elucidação dos fatos, desmisturando-os, descombinando-os e descobrindo-lhes autoria, para que “léxico e sintaxe”, como nas palavras do erudito sociólogo, não sirvam somente para escandalizar uns e enriquecer outros. Para isso, o Batalhão espera contar com a colaboração dos próprios autores e já adotou providências iniciando a recuperação dos registros das intervenções dos dois oficiais, durante todo o período que estiveram entre seus “homens de preto”.
E, por fim, há algo que eles podem fazer para não amargar a perda da respeitabilidade. Algo que não afastará, certamente, as sombras do passado que talvez incomodem os capitães, como “demônios do não esquecimento”, os quais buscam exorcizar na catarse remunerada. Basta que façam doação de tudo que arrecadarem com a venda do livro às famílias que tiveram parentes mortos no período que eles serviram ao Bope. As Ongs dedicadas aos direitos humanos podem ajudar a encontrá-las.
Talvez, assim, “A Elite da Tropa” poderá ser compreendida como obra séria, e não como irresponsável, mas estratégica alavanca para visibilidade de candidatos, num ano eleitoral.
MARIO SERGIO DE BRITO DUARTE é comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro.
"O Globo", em 9 de Maio de 2006.
( * ) Eu adotei a mesma linha de raciocínio de Mário Sérgio, quando escrevi artigos a respeito do livro, assim como, quando encaminhei documento para o Ministério Público da AJMERJ.
JUNTOS SOMOS FORTES!
PAULO RICARDO PAÚL
CORONEL DE POLÍCIA
Ex-CORREGEDOR INTERNO










