
"Se a vingança é prato que se come frio, a traição é remédio amargo que não cura, mas gera efeitos colaterais, muitas vezes irreversíveis, não só em quem foi traído, mas também no traidor. Que o diga o ex-governador de Nova York, Eliot Spitzer, que renunciou ao cargo depois que suas relações freqüentes com prostitutas vieram à tona, no início do mês. Spitzer, filiado ao partido Democrata, apoiava a candidatura de Hillary Clinton. Sim, a mulher do antigo presidente Bill Clinton.
Logo depois que o escândalo tornou-se público, a equipe da campanha da ex-primeira-dama e pré-candidata à presidência dos Estados Unidos rejeitou o apoio publicamente. Não por acaso. Afinal, quem não se lembra do episódio Monica Lewinsky?
Em 1998, o mundo todo ficou sabendo, com riqueza de detalhes sórdidos, do romance extraconjugal que o então presidente Clinton mantinha com Lewinsky, estagiária da Casa Branca. Assim como no caso Clinton, a vida privada de Spitzer ficou conhecida por todos e ele foi perdoado pela mulher traída. Quando o governador assumiu pela primeira vez o envolvimento com a rede de prostituição, ela estava ao lado dele no palco, em silêncio. Quando o ex-presidente assumiu o caso com a estagiária, Hillary também estava ao lado dele. Aliás, está até hoje. Só que, agora, é candidata com grandes chances de assumir a presidência e o coadjuvante da história é ele. Ela perdoou, como boa parte das mulheres traídas nos Estados Unidos prefere fazer quando descobre a infidelidade do marido famoso, mas renega o apoio de Spitzer, até por estratégia eleitoral: sabe que 70% dos moradores de Nova York pediram a renúncia dele por causa do escândalo.
Embora ninguém esqueça do caso Lewinsky, Hillary conseguiu reverter a situação positivamente e apagar sua imagem de esposa resignada e digna de dó.
Se a traição, na maioria dos casos, destrói lares felizes, carreiras políticas e romances perfeitos, pode também revolucionar de forma positiva a vida das pessoas.
Segundo o escritor e filósofo russo Vassili Vassilievitch Rozanov (1856-1919): “Das grandes traições iniciam-se as grandes renovações”.
Pode ter sido o caso de Hillary. E foi, sem dúvida, o caso da enfermeira paulista Marizia Coelho, de 47 anos, que depois de separar-se do marido, que insistia em manter duas famílias, deu a volta por cima, fez faculdade depois dos 40 e criou os filhos com suor e dignidade. “Se ele tivesse terminado com a outra quando descobri da primeira vez, eu o teria perdoado.Mas ele prometeu ser fiel, manteve o caso com a amante e continuou mentindo. Não pude suportar ser enganada”, lembra. Se ainda estivesse com ele, Marizia não teria saído de casa e não teria as experiências profissionais e pessoais que viveu (leia depoimento na pág. 11).
Nem sempre, entretanto, a traição é impulso renovador.
Na maior parte dos casos, ela é devastadora e só causa dor, raiva e remorso.
Quem já foi traído sabe que a vingança é o primeiro desejo a vir à mente quando a mentira é descoberta. Com o passar do tempo, essa vontade se esvai, mas a confiança, algo quase sagrado para a maioria das pessoas, não se reconstrói facilmente.
O cientista político e doutor em sociologia Aluizio Alves Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), estudou o impacto da deslealdade nas relações sociais.
Ele defende que a traição é o procedimento mais execrável entre todos, segundo os valores da cultura cristã ocidental.
Usando o exemplo de Judas Iscariotes, que traiu Jesus Cristo (leia quadro ao lado), ele afirma: “Judas traiu o que há de mais sagrado pelo que há de mais profano: entregou Cristo por 30 moedas. O peso de sua própria consciência, por ter praticado ato tão vil, levou-o ao suicídio.
A traição existe quando um membro de um grupo social ligado por algo sagrado rompe com tal sacralidade, voltando as costas ao grupo em troca de algo profano, como algum benefício material ou prazer momentâneo”, explica Aluizio.
Por isso, a traição, seja nas relações amorosas, de trabalho ou de amizade, é imperdoável na maior parte dos casos.
O temor de ser traído tem também razões biológicas.
Segundo Jorge Nogueira, psicólogo evolucionista, ele é fruto de uma programação genética.
“A infidelidade sexual é perigosa porque pode encerrar a linha hereditária do indivíduo, pode representar a morte de seus genes. Por isso, a humanidade desenvolveu um instinto de precaução contra esse mal”, atesta Nogueira.
Em épocas remotas, o fato de um homem se apaixonar por outra e ir embora significava a morte da mulher e da prole dela. Já para o macho humano, esse instinto pode evitar que ele cuide do filho de outro.
A reportagem da Folha Universal ouviu, nas ruas, a opinião das pessoas sobre traição e constatou: na hora H, quem está prestes a trair avalia principalmente se vale a pena perder a confiança de alguém importante em troca de algumas horas de prazer ou qualquer recompensa material.
Demagogia ou não, a maior parte dos entrevistados garante que o “crime” não compensa.
Todos os que já foram traídos e não perdoaram afirmaram que sentiram muita vontade de se vingar ou de ver seu traidor sofrer de culpa. Mas depois, descobriram que a indiferença é o melhor remédio.
Confiar duas vezes em quem o traiu, no entanto, nem pensar!"
JULIANA VILAS
JUNTOS SOMOS FORTES!
PAULO RICARDO PAÚL
CORONEL DE POLÍCIA
CIDADÃO BRASILEIRO PLENO