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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

ENTREVISTA - JORNAL FOLHA UNIVERSAL

10 perguntas para coronel Paúl o homem que sacudiu a segurança pública do Rio
Por Daniel Santini

Ex-corregedor da Polícia Militar do Rio de Janeiro, o coronel Paulo Ricardo Paúl é um dos principais críticos da atual política de segurança fluminense. Integrante e um dos articuladores dos Barbonos – grupo de coronéis insatisfeitos, que desde abril de 2007 briga por melhorias na PM –, ele denuncia a falta de condições na corporação e insiste que, com “salários baixos” (de acordo com a PM, um soldado começa a carreira ganhando R$ 909,49), a corrupção continuará a ser uma crescente.
Paúl foi exonerado pelo atual comandante-geral, Gilson Pitta, seu antigo aliado nos Barbonos. O movimento é assim chamado em alusão ao antigo nome da rua onde está o quartel-general da PM, no Centro do Rio.
1 - Como foi ser afastado da corregedoria?
O então comandante-geral Ubiratan Ângelo tinha colocado o coronel Mauro Assad do Couto na corregedoria e eu assumiria a Diretoria de Ensino e Instrução em seu lugar. Era o que eu queria, mas acabei sendo exonerado com a troca de comando (o coronel Gilson Pitta assumiu no final de janeiro). Foi muito chocante a maneira como tudo aconteceu. Fiquei dois dias sem dormir, o médico até me internou.
2 - O governador disse que o movimento é “tolo, quer confronto, balbúrdia e desordem”. O que achou das críticas?
Tudo o que fizemos foi dentro da hierarquia e da disciplina. Quando criamos o movimento, eram nove coronéis. Elaboramos a carta dos Barbonos com várias reivindicações, inclusive a de reajuste salarial, e nos reunimos com a cúpula da segurança e o governador do Estado. No meio de 2007 foi anunciado um reajuste de 25% em 24 parcelas. Dava R$ 8 por mês. Dissemos que a proposta era indigna. O governador suspendeu as negociações, anunciou um aumento de 4% e não tocou mais no assunto. Depois disso, nosso movimento ganhou o apoio de 44 coronéis dos cerca de 60 da ativa do Rio. O Pitta havia apoiado e, assim como os demais, se comprometido a nunca assumir o comando da corporação.
3 - Sua equipe de segurança foi mantida?
Sim, e tem que ser mantida. Fui corregedor por quase três anos, tenho muitos desafetos e sou conhecido. Só de policiais afastados, foram mais de 550. Eu preciso de segurança.
4 - A saída da corregedoria foi creditada a um artigo em que o senhor relacionava corrupção a baixos soldos?
Parte da imprensa não tem a independência que deveria ter, até por questões comerciais. Escrevi um artigo em que dizia que o policial, o herói social desgastado por um segundo emprego e sem dinheiro, vira uma presa fácil para os corruptos ativos. O problema é que fizeram uma associação ao caso de PMs que se apropriaram de umas cervejas e repetiram isso exaustivamente. Mas não foi o que me derrubou e continuo acreditando que, se a polícia ganhar bem, fica mais difícil. Começa a ficar tão caro que não vale à pena.
5 - A polêmica com o Batalhão de Operações Especiais (Bope) o prejudicou?
O senhor pediu uma investigação sobre o filme Tropa de Elite?
Disseram que eu teria instaurado um inquérito, mas não foi nada disso. Houve um desentendimento interno. O comandante do Bope reclamou de uma entrevista do capitão Rodrigo Pimentel e o caso foi parar na corregedoria. Não foi iniciativa minha. Aliás, eu nem vi o filme. Queria, isso sim, abrir um inquérito para apurar o que está no livro.O Bope é a melhor tropa urbana do mundo, mas, como toda unidade da PM, tem desvios de conduta.
6 - E as condições atuais?
São péssimas.
O profissional desmotivado trabalha pouco, ainda mais quando é obrigado a trabalhar em um segundo emprego. São raríssimos os PMs que não fazem bicos. Tem gente que dirige táxi, que ajuda a esposa, tem mecânico, pedreiro, professor. A sociedade merece bons policiais, mas tem que pagar bem para isso. Os policiais trabalham com armas de guerra, e têm que tomar decisões em frações de segundo. Não podem estar tão desgastados. Temos hoje policiais estressados, em condições desfavoráveis.
7 - E a parte de infra-estrutura?
As viaturas estão caindo aos pedaços. Não tem coletes para todo mundo. Os quartéis estão caindo aos pedaços, ruindo. Em algumas áreas, não se pode entrar porque tem o risco de desabar.
A PM foi abandonada.
O dinheiro que a gente usa é o que economizamos da verba de alimentação. Com isso, dá para consertar um quartel, uma viatura. E se às vezes não prender um pára-lama com arame, a viatura não sai mesmo.
8 - O senhor deixaria seu filho ser PM?
Não deixaria. Quer dizer, o aconselharia a não ser. O risco é grande, até para oficiais. Todo dia morre gente. Meu filho estuda história e será professor.
9 - O que os Barbonos farão agora?
Faremos uma nova caminhada nesse domingo (17). Temos diversas reivindicações e não desistiremos. Vamos insistir no fim da Secretaria de Segurança Pública. É um órgão caro e desnecessário. O ideal seria um grupo gestor multidisciplinar, com o comando da PM, da polícia civil e dos bombeiros.
10 - E os seus planos pessoais?
Eu vou continuar nessa mobilização, não vou parar nunca. Faltam três anos para me aposentar, depois, quero dar aula. Sou professor de biologia, meus planos são esses. Não quero ser comandante geral e não vou concorrer a nenhum cargo eletivo."
PAULO RICARDO PAÚL
CORONEL DE POLÍCIA
CIDADÃO BRASILEIRO PLENO