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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O POVO - RUBEM ALVES.

O POVO
Crônica de Rubem Alves - colunista da Folha de S. Paulo
Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece", observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo.
Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega:
"Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos". Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.
Vou dizer aquilo sobre o que me calei: "O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.
Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.
A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica.
Nada mais distante dos textos bíblicos.
Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas.
Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se integrasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.
E a história do profeta Oséias, homem apaixonado!
Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava!
Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão.
Até que ela o abandonou.
Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: "Agora você será minha para sempre.".
Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.
Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.
O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.
As mentiras são doces; a verdade é amarga.
Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo.
No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões.
E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!
As coisas mudaram.
Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.
O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.
As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.
Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro "O Homem Moral e a Sociedade Imoral" observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem.
Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.
Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis.
Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.
Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade.
É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.
Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado.
O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão.
Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.
Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.
O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam.
Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade.
Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.
Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.
Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.
Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária.
Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.
O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer.
O povo, unido, jamais será vencido!
Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer?
Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol.
Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno", à semelhança do que aconteceu na China.
De vez em quando, raramente, o povo fica bonito.
Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: "Caminhando e cantando e seguindo a canção.". Isso é tarefa para os artistas e educadores.
O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.
Juntos Somos Fortes!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

POR QUE O POVO NÃO SAI ÁS RUAS?

EMAIL RECEBIDO:
Autor: Affonso Romano de Sant’Anna.
As pessoas estão se perguntando, diante dos escândalos no Senado, "por que o povo não sai às ruas"?
E além da indagação exalam uma auto crítica desalentada: " o povo brasileiro é muito passivo".
A isto seguem-se frases de impotência e ceticismo quanto aos políticos em geral. A situação torna-se ainda mais incômoda quando essas mesmas pessoas lembram dos " caras pintadas" que, há quase 20 anos, saíram às ruas para depor Collor.. Olham para o passado recente e não conseguem entender porque hoje o povo não se rebela, porque a história não se repete. Os cientistas políticos deveriam/poderiam explicar isto. Sem ser cientista, parece-me que, para entender esse impasse, temos que convir no seguinte:
1.é uma ilusão pensar que o "povo" espontaneamente sai às ruas para protestar e exigir reformas;
2.os movimentos sociais desta natureza exigem duas coisas complementares: liderança e militantes. Este tipo de atuação tem algo de fanatismo, de evangélico, de messianismo, misturado ao sonho e à utopia;
3.sem liderança e militantes que articulem manifestações, as insatisfações flutuam sem direção.
A imprensa pode alardear o que quiser, que o pasmo ficará como uma bolha que se esvai no ar. Cadê então as lideranças e a militância? Onde estão? Quem são aqueles que deveriam e poderiam ser líderes?
Há que cruamente considerar os seguintes fatos:
1. até pouco tempo, grupos militares, religiosos e facções políticas tradicionalmente fizeram esse trabalho de militância. Hoje, no entanto, no quadro brasileiro, não há nenhum partido ou organização capaz de exercer esse papel. Se não, vejamos:
2. os militares brasileiros, que organizaram as manifestações populares que desembocaram em 1964 estão de quarentena e desgastados politicamente; 3. As organizações religiosas que lutaram contra a tortura e a ditadura hoje não têm nem a penetração nem a liderança que tinham há décadas atrás;
4. Os partidos de esquerda como o PT, PC, PCdo B, PSB, chegaram ao poder e se distanciaram das ruas, tornando-se fisiológicos, seus militantes renderam-se ao lado afrodisíaco do poder; o PSDB e o DEM não têm militância para isto e o PSOL não tem capilaridade para movimentos de rua, como tinha o falecido PT, que está cometendo em público uma série de harakiris;
5. A OAB que teve um papel importante na luta contra a ditadura através de Raymundo Faoro, não tem voz que se faça ouvir a nível nacional;
6. Os partidos de centro-direita têm um discurso frouxo e tendem para inércia, para os acordos e só aglutinam os subordinados para interesses próprios;
7. Os estudantes que seriam uma reserva disponível não podem ser mobilizados porque a UNE caiu numa armadilha: perdeu a independência, recebe dinheiro do governo, está com a consciência paralisada ou adormecida.
Esta situação é motivo de júbilo para alguns políticos da situação que esfregam descaradamente na cara dos caras pintadas ou não pintadas, o fato de que se "lixam para a opinião pública" e que tal "opinião é volúvel".
Estão tripudiando porque sabem que falta o elo, a argamassa da liderança e militância popular capaz de estremecer o poder.
Militância e liderança que é fruto do trabalho alucinado de alguns "missionários", "revolucionários" que queimam suas vidas atuando 24 horas por dia para que seus sonhos e alucinações aconteçam. Diante desse quatro, assinale-se que a cultura chamada pós-moderna incentiva cada vez mais a fragmentação da consciência.
Alguém poderia esperançosamente dizer que resta a internet e o twitter, como se o socorro pudesse vir sozinho do milagre eletrônico. Mas, convenhamos, até mesmo a internet e o twitter só funcionam política e socialmente se indivíduos fisicamente presentes e reconhecíveis assumirem o risco da liderança e romperem a crosta do pasmo e da desilusão.
JUNTOS SOMOS FORTES!
PAULO RICARDO PAÚL
CORONEL DE POLÍCIA
CORONEL BARBONO