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domingo, 13 de julho de 2008

JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO - ENTREVISTA - CORONEL UBIRATAN DE OLIVEIRA ANGELO.

Jornal o Estado de São Paulo – O ESTADÃO
12/07/2008.

''Para quem nunca ouviu tiro é fácil chamar PM de débil mental''
Ex-comandante diz que há pressão política para pôr soldados na rua, mas não se investe na formação deles.
Alexandre Rodrigues

O ex-comandante da Polícia Militar do Rio, coronel Ubiratan Ângelo, mora perto do local onde o carro da mãe de João Roberto Amorim Soares, de 3 anos, foi alvejado por policiais no domingo, na Tijuca. Ele conhece parentes do menino e foi ao enterro abraçar a família. Mas também se solidariza com as famílias dos dois soldados presos pela morte do menino. Para ele, são duas vítimas da falta de investimentos em treinamento e condições de trabalho para a polícia. Antes de comandar a PM, Ubiratan havia sido diretor de Ensino e comandante do Centro de Formação de Praças (Cfap), mas não conseguiu implementar mudanças significativas na formação. Foi afastado do cargo no início do ano, em meio a um movimento de oficiais por melhores salários. Em entrevista ao Estado, ele admite que há constante pressão política sobre o comando da PM para que se priorize o efetivo na rua e não a formação.
O que o senhor sentiu ao ver o erro dos policiais nesse caso?
Passei 32 anos na polícia. Será que eu cometeria um erro desses? Na teoria é fácil dizer que não. Nunca cometi. Quando soube, pensei: e se eu tivesse cometido? Estaria na prisão. Imagino meus filhos na escola, ouvindo: o governador chamou o seu pai de débil mental. Ontem, aquele PM era o herói da sociedade. Não se faz isso com a família de quem ganha um salário de fome, tem uma escala inadequada e condições de trabalho que precisam ser melhoradas.
O senhor está dizendo que esses policiais também são vítimas?
São. Mas não estou defendendo a ação deles, não sei exatamente o que aconteceu. É fácil criticar longe da pressão à qual os policiais são submetidos. Quem nunca passou por isso não sabe o que fala. Para quem nunca ouviu um tiro passar perto do ouvido é fácil chamar soldado de débil mental.
O comandante da PM havia suspendido treinamentos recentemente. Existe pressão política para atender à demanda operacional por policiais na rua?
Sim. Isso porque se clama sempre por mais e mais polícia na rua. Essa tendência, que leva a tirar o cara da folga ou do curso para cobrir a atividade ostensiva, ninguém me convence que é política de segurança. Hoje a política de segurança se reduz a suprir o déficit de efetivo?Não existe política. Não falo só desse governo. Nunca teve. Uma política é algo traçado, planejado e inoculado nos gestores, operadores e clientes (a população). Há estratégias dos chefes e comandantes de polícia. Se houvesse uma política, o que você perguntasse para qualquer um seria a mesma coisa. Os comandantes da PM têm o hábito de colocar na parede suas marcas e diretrizes. No dia que assumi, coloquei três marcas. Se cada um põe a sua é porque não há política.
Que nota o senhor daria para o treinamento dos policiais?
Eu não vou ser leviano de avaliar porque não sei o que está acontecendo hoje no centro de treinamento. O que eu posso dizer é que oito meses para a formação do policial é pouco. Todo mundo admite que é pouco. Agora o difícil é tomar a decisão de aumentar, porque entram fatores políticos. A promoção automática também influencia muito. O policial pensa: se eu vou ser cabo daqui a oito anos, não preciso estudar.
Os governantes são responsáveis pelos resultados?
Se não há política de manutenção da boa preparação do policial, você interfere no resultado, direta ou indiretamente.
Que esforço o senhor encontrou no governo estadual para aumentar os salários dos policiais?
Nenhum. A Força Nacional veio para suprir a carência de efetivo do Rio. Então, por que a PM tem mais de 2 mil homens fora? Hoje a PM vive o dilema: sou grande ou sou pequena? O secretário de Planejamento me disse que não podia dar aumento para a polícia porque o efetivo é muito grande. Afinal, é grande ou pequeno? Se é grande, como você empresta 2 mil para outros órgãos? Cada vez que policiais são cedidos e entram novos, reduzem-se as chances de aumentar os salários. Então, quem é que quer valorizar o capital humano da polícia? Não sei.
Quem é:
Ubiratan ÂngeloEx-comandante da PM do Rio, formado em Direito, e atual diretor do Instituto Universitário de Políticas de Segurança e Ciências Policiais da Cândido Mendes.
Afastado do cargo neste ano, em meio a um movimento de oficiais por melhores salários.

sábado, 12 de julho de 2008

SITE DO JORNALISTA SIDNEY RESENDRE - ENTREVISTA - CORONEL UBIRATAN DE OLIVEIRA ANGELO

"A competência sobre expulsão não é do governador"
Letícia Simões.
Os policiais militares acusados da morte do menino João Roberto Soares, 3 anos, baleado na Tijuca, foram indiciados pelo delegado Walter Alves de Oliveira na terça-feira (08) por homicídio doloso qualificado - com intenção de matar e sem possibilidade de defesa da vítima. Oliveira ainda pediu a prisão temporária por 30 dias do cabo William de Paula e do soldado Elias Gonçalves da Costa.
O governador Sérgio Cabral declarou que o acidente ocorrido no domingo (6) à noite foi uma "atrocidade", e que "os policiais envolvidos foram incompetentes, pois não souberam agir em um momento de tensão". Cabral anunciou ainda a expulsão dos policiais miliares da corporação. "O presos responderão não só do ponto de vista administrativo, mas do ponto de vista criminal", completou o governador.
O ex-comandante da Polícia Militar, Ubiratan Ângelo, disse, em entrevista exclusiva ao SRZD, que a decisão sobre a permanência do cabo e do sargento na corporação depende exclusivamente do comandante-geral da PM, e não do governador. "Essa expulsão é um pré-julgamento. Filosoficamente, eles já estão condenados. Tecnicamente, você tem o lado penal e o lado administrativo. Pelo primeiro, se o entendimento for que eles cometeram crime doloso contra a vida , serão julgados pela justiça comum, como prevê o código militar. Já pelo lado administrativo, eles serão submetidos a uma apreciação do conselho disciplinar, para saber se eles têm condições de permanecer na polícia. A decisão vai ser levada ao comandante-geral, e ele, apenas ele, tem competência para manter ou excluir na corporação. Essa competência não é do governador".
Em relação às críticas sobre o despreparo e a má formação dos policiais militares, Ubiratan concordou que o tempo - oito meses - é curto, mas disse ser "ainda maior que a formação da Polícia Civil, por exemplo - em dois, três meses um policial civil está pronto".
"O que não pode acontecer de maneira nenhuma é reduzir esse curto período, colocando como desculpa a necessidade de maior efetivo na rua. Há a necessidade, sim, de pessoal, mas de um pessoal mais bem qualificado", reclamou.
Para o ex-comandante, uma reforma ampla nas condições de trabalho dos policiais é necessária - principalmente no salário e no tempo de serviço. "O policial não pode trabalhar na rua 24 horas, ainda mais porque ele não mora perto do batalhão. A maior concentração de policiais é na Baixada Fluminense, Zona Oeste e São Gonçalo, e ele tem que trabalhar em Ipanema, Copacabana, São Conrado. Depois, ganhando mal, ele vai fazer alguma atividade paralela entre um serviço e outro, seja como segurança, motorista de táxi, camelô ou professor".
"Mesmo numa posição de risco, muita gente quer fazer parte da polícia porque está em situação de desespero, não tem outra oportunidade. O policial hoje sofre pressão o tempo inteiro - em janeiro desse ano tivemos uma onda de ataques dos bandidos. Ele fica cansado, desmotivado. É muito simples jogar a culpa apenas no policial - ele tá errado e deve ser punido. Existe uma série de erros do sistema. Há uma necessidade de melhorar o foco da polícia, de puxá-lo para o cidadão. Porque hoje em dia, mesmo não verbalizada, a ideologia é que, mais importante do que a segurança do cidadão, é o bandido preso. A sociedade aplaudiu Tropa de Elite, mas não aplaude um parto feio pelo policial", ele argumentou.
Sobre a política de segurança pública do Estado, Ubiratan disse que não existe uma definição específica - e, por isso, as polícias no Rio vem atuando apenas através de estratégias organizadas pelos chefes da corporação. "A política de segurança tem que fazer parte de um contexto muito disciplinar dentro dos cargos públicos. Qual a integração entre o sistema de polícia e o sistema de segurança pública? Dentro dessa 'política', ano passado foi entregue ao governo um conjunto de 13 propostas, entre as quais melhoria no salário, mudanças na escala - houve alguma melhora - Se você tem uma política de segurança, deve-se buscar economizar esforços e atender ao cidadão - isso, definitivamente, não é uma política de segurança pública".
Em relação à tática do enfrentamento, o ex-comandante da PM disse ser a favor em determinadas situações. Como exemplo, citou os ataques desferidos a policiais em dezembro de 2006, quando a tática de confronto foi utilizada. "Não pode o policial ficar na viatura escondido porque sabe que o bandido vai passar e ele não poderá atacar. Para você reduzir o acesso dos bandidos às armas de fogo, o policial tem que tirar da mão dele - e não vai ser por campanha 'entregue sua arma e ganhe uma bala'".
Ubiratan concluiu dizendo que a culpa pelo despreparo dos policiais não é da academia militar - já que ela oferece cursos -, mas sim de decisões superiores para retirar os policiais dos centros. "Todo mundo quer colocar efetivo na rua - efetivo despreparado. Não pode tirar policial da sala de aula para fazer cobertura na praia. É mais fácil interromper o curso e botá-lo para garantir a segurança de um jogo - ele fica despreparado e não volta mais".

quarta-feira, 9 de julho de 2008

ENTREVISTA DO CORONEL UBIRATAN DE OLIVEIRA ANGELO - EXTRA ON LINE

EXTRA ONLINE.
Ubiratan: "baixo salário não é o único problema."
O Coronel Ubiratan falou sobre os baixos salários; as escalas de serviço dos Policiais Militares; a estratégia política de responsabilizar os Policiais Militares; o termo circunstanciado e outros temas.

EX-BLOG DO CÉSAR MAIA - 09/07/2008.

- Do jornalista e escritor Dimmi Amora, no blog do Jorge Antonio Barros -Globo-ON: trechos!
GOVERNADOR, O SENHOR É RESPONSÁVEL DIRETO POR ISSO! PARE!
1. "Escrevo esta carta por dois motivos. O primeiro é a comoção. Poderia ter sido o meu filho a vítima da sua Polícia na noite de domingo. O segundo é porque já não dá mais para ficar ouvindo o senhor falar sobre casos iguais a estes, e não são poucos, como se fosse um comentarista de debate esportivo. Vamos deixar as coisas bem claras. O senhor tornou-se automaticamente o responsável direto por tudo isso, tornou-se o comandante das polícias do Rio de Janeiro.
2. Então, os policiais obedecem ao que o senhor determina. E o senhor, nestes 18 meses (um terço do mandato, e não dá mais para fazer promessas), só deu uma única ordem para seus policiais: matem. Do que o senhor vem dizendo, os policiais só conseguem entender: mate! E a sua política pública, demonstrada no número cada vez mais crescente e assustador dos chamados "autos de resistência", é a política da matança.
3. E o que o senhor fez para parar este atos coletivos de homicídio policial? Nada. Sua polícia continua mal treinada e mal preparada e, para piorar, incentivada pelo senhor. O senhor garante que esta sua ordem é de confronto (que, repito, é entendida pelos policiais como ordem para matar). Imediatamente. Pare de incentivar seus policiais ao confronto. Pare de incentivá-los a matar."
- EX-BLOG VEM DIZENDO ISSO HÁ MUITO TEMPO!
Globo-OnEx-comandante da PM vai a enterro e critica "falta de política de segurança".
O ex-comandante da Polícia Militar Coronel Ubiratan Ângelo foi ao enterro do menino João Roberto, no Cemitério do Caju, e disse que a criança "é uma vítima do desinteresse pelo capital humano na polícia". Ele afirmou ainda que "não existe política de segurança alguma, nem a do 'atire primeiro e pergunte depois".
- AINDA SOBRE A ANTI-POLÍTICA DE SEGURANÇA!
Elio Gáspari hoje:
"Acreditar que os enfrentamentos da polícia de Sérgio Cabral têm algo a ver com uma política de segurança pública é correr atrás do papel de bobo."

terça-feira, 8 de abril de 2008

JORNAL DO C.O.R - ANO XVIII - Nº 120 - ABRIL/2008 ( III )

Fotografia extraída do órgão informativo da Associação de Oficiais Militares Ativos e Inativos da PM e do CBM:
JUNTOS SOMOS FORTES!
DEUS ESTÁ NO COMANDO!


PAULO RICARDO PAÚL
CORONEL DE POLÍCIA
CIDADÃO BRASILEIRO PLENO

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

domingo, 10 de fevereiro de 2008

JORNAL O DIA - 10 DE FEVEREIRO DE 2.008


JORNAL O DIA - ENTREVISTA COM O CORONEL UBIRATAN DE OLIVEIRA ANGELO:
10/2/2008 01:22:00 (Dia Online)

Ubiratan Angelo: 'PM deve ser valorizado'

Ex-comandante exonerado admite que permitiu manifestações salariais da tropa, conta que vereador queria manter polícia longe de Rio das Pedras e revela que, depois de sua saída, não foi procurado pelo governador.
Gustavo de Almeida e Vania Cunha.

Rio - Quase duas semanas após ser exonerado, o ex-comandante-geral da Polícia Militar, coronel Ubiratan Angelo, abre a nova casa e os bastidores de seus 13 meses de gestão, numa entrevista exclusiva a O DIA.
Na conversa, insiste que a passeata liderada pelo ex-corregedor Paulo Ricardo Paúl não teve relação com sua exoneração.
E assume: permitiu duas grandes manifestações feitas por PMs ano passado, embora não tenha autorizado o protesto que teria resultado em sua queda.
Longe da farda, à vontade, de chinelos e bermuda, Ubiratan confessa que, pelos ataques de dezembro de 2006, acabou administrando uma polícia para a guerra — mesmo sua formação sendo prioritariamente comunitária.
Critica as delegacias de Polícia Civil que concentram flagrantes, lembra histórias curiosas e afirma que teve dificuldades para instalar um grupamento na Favela de Rio das Pedras, em Jacarepaguá, área dominada por milícias.
Sobre a crise dos Barbonos — grupo de oficiais que defende melhoria salarial —, pondera: “Não sou um Barbono, eles se juntaram sem me chamar para nada”.

— Como o senhor recebeu a notícia da exoneração?
— Quando fui escolhido para comandante-geral, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, perguntou: “Estou convidando o senhor para ser o próximo comandante-geral, o senhor aceita?”. Na saída, muito desconcertado, ele disse: “Vou precisar do seu cargo”. Eu respondi: “O cargo é de quem nomeia, secretário. Um dia, entrei aqui coronel PM e saí comandante-geral. Hoje, entro aqui comandante-geral e saio coronel PM. Isto ninguém me tira”.
— Quais os motivos de sua demissão?
— Vou dizer o que eu acho que não tenha sido. Em primeiro lugar, a passeata (27 de janeiro) não tinha sido a primeira e nem a segunda. Depois, ninguém sabe disto, mas o secretário me passou cinco missões no dia seguinte. Se o secretário planejasse me exonerar por isso, não iria me passar cinco missões à tarde. A minha percepção do meu processo de exoneração é a de que vinha sendo construído há um bom tempo. Parecia que alguém ou alguma coisa queria que eu desistisse. Nem se o capitão Nascimento (do filme ‘Tropa de Elite’) me colocasse no saco, eu pediria para sair.
— O senhor sempre disse que seu sonho era ser comandante-geral...
— Exatamente. Desde o dia em que eu disse que queria ser comandante-geral, em 2003, começou o processo. Ficava sabendo de notícias de que não ia assumir, vi coisas acontecendo comigo. Eu não agradava a alguém, só não sabia o motivo. Durante a minha gestão, foi anunciada a minha queda diversas vezes. Dia 15 de janeiro, durante o aniversário de minha filha, fui surpreendido por uma série de comandantes de outros estados me perguntando por que eu havia pedido exoneração. Os parabéns da minha filha sendo cantados e eu dizendo que não pediria demissão. Espalharam estes boatos.
— O senhor apoiava o movimento dos Barbonos?
— Nunca fui Barbono. Eles criaram o grupo e me deixaram de fora. Não me excluíram, o objetivo era que eu não participasse. Mas quase todos são contemporâneos de escola. Só que, na posse, disse que lutaria pela dignidade e pelo salário do policial militar. Como iria desautorizar passeatas com esse fim? As duas primeiras passeatas, em junho, realmente autorizei. Não autorizei esta última, mas também não desautorizei. Proibi terminantemente que entrassem na rua do governador.
— E por que não proibiu a manifestação?
— Foi opção minha. O soldado não pode se manifestar à frente do comandante. Eu não teria como falar com todos sobre isso. Já imaginou se consigo evitar que os coronéis comparecessem e deixo os oficiais mais baixos ficarem à frente? Imaginemos que fossem lá tenentes e sargentos sem saber que desautorizei. Quem deveria puni-los? O comandante-geral. Não achei que, naquele momento, fosse justo com eles. O policial precisa ser mais bem tratado, reconhecido.
— Mas eles protestaram mesmo assim...
— É. O policial está sempre garantindo a segurança de milhões de pessoas e não recebe nenhum elogio. O PM sai do serviço depois que acaba a ocorrência. Se tiver uma e a central de flagrantes for longe — tem algumas que ficam a 30, 40 quilômetros do batalhão —, tem que ir. Isso estava na nossa reivindicação: as concentradoras de flagrantes, que fazem com que eu perca capilaridade na rua. Isso existe para economia de recursos da Polícia Civil. E para a PM? É gasto do erário, tempo do policial na rua.
— Em sua posse, o senhor falou em três bases: respeito ao PM, proteção do cidadão e potencialização da ética, hierarquia e disciplina. Conseguiu cumprir?
— Não. Prometi lutar, isso eu cumpri. Prometo aquilo que posso fazer. Mas não por que alguém me impediu, os fatos que aconteceram me obrigaram a fazer outras opções táticas. Não tenha dúvida que o PM é um cidadão, deve ser valorizado.
— Antes mesmo da exoneração do ex-corregedor, a saída dele já era comentada. Por que o senhor o manteve no cargo?
— Eu queria, quando assumi, que o Paúl continuasse corregedor. Mas ele queria ir para a Diretoria de Ensino e Instrução (DEI). Cheguei a pensar para a Corregedoria no coronel Celso Araújo, que comandava o batalhão de Resende. No fim, disse a Paúl para ficar até o fim de 2007, que depois iria para a DEI. Para não cumprir minha palavra, tinha de acontecer algo imponderável. Sair do cargo não é imponderável, um dia iria acontecer. Tenho que me planejar para o que vai acontecer daqui a 10, 20 anos, mesmo sabendo que não estarei lá. A instituição é mais importante que quem está comandando.
— Ao assumir, o senhor foi criticado por sua postura de policial cidadão. Essa não era a política para a segurança?
— Há uma diferença entre política, estratégia e tática. As pessoas dizem que a política de segurança pública é uma política de enfrentamento. Mentira, nunca foi. Se fosse, isso teria sido conversado antes de começar o governo. O que a gente mudou foi a tática, que interveio na nossa estratégia.
— Mas o senhor assumiu em meio a uma onda de ataques criminosos...
— Era um cenário diferente. Se houvesse política pré-estabelecida de enfrentamento, eu não seria escolhido comandante-geral. Alguns pretensos especialistas diziam: “Olha, ele é policial comunitário, vai correr frouxo”. Quando aconteceu aquela pancadaria, em 28 de dezembro de 2006, assumi na linha do enfrentamento, e não uma política do enfrentamento. Os episódios de 28 de dezembro provocaram mudanças nas ações, atraso na política de segurança.
— Isso mudou os planos?
— No final da linha, não dava. Queria ter implantado novos Gpaes, mas precisava de pessoal na rua para combater os ataques. A implantação requer grande operação, ocupação. Não poderia colocar todo esse aparato. Infelizmente, vou morrer com a dívida dos Gpaes da Babilônia e Chapéu Mangueira.
— Houve uma proposta para criar um Gpae em Rio das Pedras que não foi à frente?
— Vou voltar no tempo: antes de o Nadinho (Josinaldo Francisco da Cruz) ser vereador, era o presidente da associação de moradores. Eu era o comandante do Cpae e quis colocar um posto em Rio das Pedras. Quis colocar naquela época. A resposta oficial dele era: “A comunidade acha que não há motivo para um Gpae”. Conversei com membros da comunidade mesmo, mas não me convenceram. Quando assumi o comando-geral, conversei com o secretário e consegui.
— A população cobra ostensividade. É possível prevenir crimes com essa polícia mais cidadã?
— A sociedade mudou e o crime também. As armas pesadas chegaram e a faixa etária dos bandidos diminuiu, o que aumentou muito a violência. E a criminalidade acaba com uma grande operação e uma ocupação. O resultado dessa operação é que vai dizer como será o trabalho depois.
— Então a estrutura da polícia não precisa ser somente ostensiva?
— A política não é de truculência. Acaba tendo ações assim para dar resposta. Essa é a diferença de política, estratégia e tática. Tem que entrar, impor a presença da polícia. Vai ser tiro, porrada e bomba? Não sei, vai depender da resposta. A ocupação é para que os criminosos não voltem.
— Mas a PM passou dois meses na Vila Cruzeiro, na Penha. Na época, o senhor falava que estava impondo a presença para o Estado fazer sua parte, mas não foi isso que aconteceu...
— A Vila Cruzeiro é um lugar extremamente violento. Os bandidos tinham tanta certeza de que mandavam ali que davam tiros na comunidade para dizer que foi a polícia. Se a gente sai, eles iriam bater naquele pessoal e os deixariam na lona. Tem gente lá de dentro que me disse: “Olha só, coronel, meu filho está há dois meses sem aula, mas não sai, não. Para chegar à escola, tinha que pedir licença aos traficantes. E hoje, vai pedir ao policial”. Se a criança vir fuzil na mão de um policial, está vendo na mão do poder público. O referencial dele tem que ser o Estado.
— Ainda sobre a Vila Cruzeiro, por que foi decidida a ocupação?
— Eu estava num evento de comandantes-gerais em São Paulo quando soube da morte do policial do Bope. Me reuni com vários comandantes e, naquela reunião, foi decidido que a PM iria entrar na Vila Cruzeiro. Perguntei ao Pinheiro Neto, comandante do Bope: “O que é preciso para entrar lá?”. Ele respondeu que era tirar o blindado dele de lá. Tentei ajuda das Forças Armadas, mas quem foi lá tirar o blindado do Bope foram os bombeiros. Um guindaste, com o chefe do Estado-Maior dos bombeiros a bordo, foi lá dentro e tirou o blindado do Bope lá de dentro. Foram duas mortes próximas: a da dupla de policiais onde morreu o menino João Hélio e a do policial do Bope, vítima de um tiro de um daqueles bunkers. A gente tinha que destruir aquela casamata, que permitia ao bandido atirar de longe e protegido!
— Sobre o episódio dos PMs que saquearam a carga de cerveja, o senhor considera a punição justa?
— Prendi os policiais na hora, mas ilegalidade é uma coisa, crime é outra. As fotos não são provas, são indícios. E não se pode prender ninguém por indícios. Tem o roubo do caminhão, a recuperação da carga e o registro da recuperação. Foi registrado o roubo? Sim. A carga recuperada? Parte dela sim. E registraram a recuperação? — Os policiais não registraram a recuperação e a carga da viatura não foi encontrada. — A RP (radiopatrulha) não foi à delegacia ou os próprios donos da carga não avisaram que foi recuperada? Só o dono pode dizer onde as caixas foram parar. Não ter sido devolvida não significa que foi subtraída. Não estou defendendo os PMs, estou dizendo apenas que não tinha elementos e provas suficientes para concluir o fato. Eu tinha que transformar em Inquérito Policial-Militar para pedir a prisão preventiva dos policiais.
— O senhor falou com o governador Sérgio Cabral depois da exoneração?
— Até hoje ele não falou comigo. Houve um dia em que eu chorei de emoção por um ato dele. Cheguei com as propostas de promoções no Palácio Guanabara, tenso porque levava as promoções sozinho. Disse para ele: “Queria pedir ao senhor para antecipar o ato da promoção, mas a contar da data à frente, mas que a publicação saísse antes para facilitar os policiais”. E ele: “Não tenho nada a analisar. Está tudo administrativamente correto? Quem escolhe é a polícia, quero ver como cidadão comum, no Diário Oficial. Onde é que eu assino?”. Foi aí que eu chorei. Eu não esperava! Me pegou de surpresa, ele não viu a lista, o processo saiu de lá na minha mão. Ele assinou sem olhar.
— O senhor guarda alguma mágoa ou tem algum arrependimento?
— Não me arrependo e não guardo mágoa. O cargo pertence a quem nomeia."


Uma entrevista esclarecedora, parabéns meu Comandante!

E aproveito para esclarecer um ponto.

Realmente, quando o Coronel Ubiratan estava para assumir a função de Comandante Geral, eu indiquei o nome do Coronel Celso de Aráujo para ser o novo Corregedor Interno, um Oficial da nossa turma de CFO. Ubiratan concordou e eu fiquei de fazer o convite, pois eu queria ir para a Diretoria de Ensino e Instrução. Eu já estava há quase 2 (dois) anos na função de Corregedor Interno.

Ao encontrar dias depois com o Coronel Celso de Araújo, fiz o convite e obtive como resposta:

- Isso é convite que se faça para um amigo, isso é um convite para inimigo. Eu quero ser Comandante Intermediário e um político já está vendo isso!

Comentei esse fato com vários Coronéis da Polícia Militar, diante da minha surpresa e indignação.

Quem quiser confirmar, pergunte ao Coronel Celso de Araújo, tenho certeza que ele confirmará! Afinal todos nós temos direito a ter nossas pretensões.

O Coronel Celso de Araújo não é um "Coronel Barbono"; não participou das reuniões na AME/RJ; não foi a nenhum "ato cívico", nem mesmo à passeata e Comanda o 5º Comando de Policiamento de Área, um dos comandos intermediários da Polícia Militar, desde o início do Comando do Coronel Ubiratan de Oliveira Angelo.



PAULO RICARDO PAÚL

CORONEL DE POLÍCIA

CIDADÃO BRASILEIRO PLENO