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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A POLÍCIA BRASILEIRA (...) É TERRIVELMENTE MAL PAGA, O QUE ENCORAJA A CORRUPÇÃO.


REVISTA VEJA:
Entrevista • William Bratton
O Steve Jobs da polícia
A crônica americana de grandes feitos empresariais, como a virada da General Electric promovida por Jack Welch, ou a da Apple, de Steve Jobs, tem agora seu similar no ramo da segurança pública. William Bratton, 62 anos, já era famoso quando conseguiu vencer o crime em Nova York, na década passada. Sua mais recente empreitada foi recolocar o Departamento de Polícia de Los Angeles no trilho. Graças a seu talento para estruturar polícias, alcançou fama inigualável entre os policiais do mundo inteiro. No mês passado, ele trocou o comando do LAPD, que ocupou por sete anos, pela carreira de consultor. Suas lições nesse ramo são preciosas. Bratton falou ao editor Ronaldo França, pouco antes de se aposentar, sobre o que falta às polícias brasileiras para que ganhem em eficiência.
SEGURANÇA NO BRASIL
Quando estive no Brasil, em 2002, o país começava a se tornar uma força econômica. Nessa área, o Brasil teve avanços enormes, que não se refletiram na segurança. Eu não sairia do hotel para andar pelas ruas do Rio de Janeiro, como faço nos Estados Unidos. A reputação do Rio é terrível. Eu não iria lá nem a negócios nem como turista.
SALÁRIOS X CORRUPÇÃO
A polícia brasileira, como acontece em diversos países latino-americanos, é terrivelmente mal paga, o que encoraja a corrupção. Os policiais ficam muito suscetíveis a receber propostas de suborno para sustentar sua família. Nos Estados Unidos, os policiais ganham muito bem e pertencem de fato à classe média. No Brasil, os soldados da Polícia Militar ou os agentes da Polícia Civil são parte da classe social mais baixa. Isso cria uma distância em relação à classe média e aos ricos, provoca grandes dificuldades e frustração."Comecei a carreira como policial. No Brasil, seria um soldado de polícia. Eu jamais conseguiria ascender e me tornar chefe de polícia. Seria no máximo capitão ou major"
POLÍCIA DESMOTIVADA
Vocês têm uma divisão na Polícia Militar em que os policiais são de uma classe social diferente da dos oficiais. Os soldados não podem chegar ao topo. E os policiais civis e investigadores são uma outra classe. Os delegados são advogados. É um sistema extraordinariamente complexo, que não tem a equidade existente na polícia dos Estados Unidos. Eu comecei minha carreira como policial. No Brasil, seria um soldado de polícia. Jamais conseguiria ascender ao cargo de oficial e, depois, ao de chefe de polícia. Seria no máximo capitão ou major. Eu teria de ir a uma faculdade de direito para me tornar delegado. Em meu departamento, todo investigador pode chegar ao posto mais alto da carreira policial. Não ter chance de ascender é algo desestimulante em qualquer carreira. Não haveria por que ser diferente na polícia.
TECNOLOGIA
Ainda há muitas delegacias com aparelhos de fax velhos e máquinas de escrever. Os equipamentos também são muito precários, com veículos em condições terríveis. Esse atraso é extremamente prejudicial. A tecnologia faz parte do coração de um departamento de polícia, claro que operada por pessoal capacitado e bem treinado.
JUSTIÇA
É muito, muito importante que as corporações se relacionem com a Justiça, a promotoria, o sistema penitenciário, todos os elementos que compõem o sistema de justiça criminal. No Brasil, isso não acontece. Já estive no Ceará prestando serviços para o governador Tasso Jereissati, que estava muito empenhado nisso e trabalhando com muita seriedade. Despendemos muito tempo lá, implantamos alguns sistemas e fizemos algumas recomendações. Mas a Justiça é extremamente ineficiente. O sistema de justiça criminal brasileiro é tão desconectado que nem sequer pode ser chamado de sistema. É preciso promover uma profunda mudança, ou não se terá nunca uma boa polícia no Brasil.
Fonte: Veja
JUNTOS SOMOS FORTES!
PAULO RICARDO PAÚL
CORONEL DE POLÍCIA
Ex-CORREGEDOR INTERNO

sábado, 25 de julho de 2009

A POLÍCIA DE NOVA YORK - ALGUMA SEMELHANÇA?

EMAIL RECEBIDO:
Pesquisador fala sobre o treinamento da polícia de Nova York
O pesquisador Hung-En Sung, especialista em estudos de polícia e corrupção da John Jay College acha que Nova York derrubou os altos indices de criminalidade da década de 90 por uma conjunção de fatores. De um lado, a política de tolerância zero, que promoveu um esforço investigativo para prender tanto os pequenos delinquentes quanto os grandes criminosos. Do outro, a melhoria das relações entre policiais e moradores e o crescimento econômico da década de 90 nos EUA. Nesta entrevista, ele comenta o treinamento dos policiais novaiorquinos e os novos desafios da segurança na cidade.
Como é o treinamento do policiais novaiorquinos?
HUNG-EN SUNG: O candidato a policial precisa passar seis meses estudando na Academia de Polícia e mais um ano fazendo estágio com policiais experientes. O período na academia de polícia exige estudo das leis, requer um treinamento militar rígido, com noções de manejo de armas e de conduta ética. Mas é preciso também que os policiais sejam orientados por agentes mais experientes, de modo a evitar conflitos com a população. O policial aprende a impor sua autoridade sem confronto com a comunidade. Esta é a base da atuação da polícia e por isto ela se tornou respeitada: o policial está ali para proteger a comunidade. Se a população não confia na polícia, metade do trabalho está perdida…
Os estudos mostram que o desempenho da economia tem forte influência sobre os indices de criminalidade?
HUNG-EN SUNG: _ Sim. Os estudos mostram que os índices de desemprego têm uma relação direta com o aumento da criminalidade: quanto mais desempregados, maior a propensão para que haja aumento de crimes. A economia conta muito. Mas contam muito também as formas de solidariedade numa comunidade. E é preciso que a cidade compreenda que os policiais fazem parte desta rede de solidariedade. Caso contrario não existe respeito pelo guarda da esquina e este respeito é essencial para qualquer política de segurança. O policial precisa aprender que ele tem que prestar contas de seus atos não apenas para os seus superiores, mas também para a comunidade.
O que mudou na polícia de Nova York depois do ataque de 11 de setembro de 2001?
HUNG-EN SUNG: Depois do ataque do 11 de setembro, houve um reforço dos serviços de inteligência em Nova York, com a formação de equipes especiais de combate ao terror, em conexão com equipes federais, do FBI. De um lado, multiplicaram-se as formas de vigilância, desde a instalação de milhares de câmeras de video nas ruas até a contratação de segurança particular por empresas. Mas o mais importante foi o aparecimento de organizações de moradores e de comerciantes que hoje ajudam a patrulhar as ruas e controlar a polícia. Sem a ajuda de moradores e sem a constante fiscalização de promotores judiciais, Nova York continuaria imersa na criminalidade dos anos 90.
Mas existem muitas comunidades que têm queixas de policiais em Nova York e alguns dos crimes resultantes do excesso de força de policiais não foram punidos. Como explicar isto?
HUNG-EN SUNG: É verdade. A policia de Nova York ainda precisa fazer um esforço para melhorar suas relações com a comunidade, sobretudo nas áreas mais pobres ou nas que são mais densamente habitadas por negros e latinos. Mas a questão dos julgamentos de policiais é ainda controversa na própria sociedade: os juris são formados por pessoas comuns e muita gente pensa que a policia deve impor-se pela força e que, mesmo em casos controvertidos, não houve excesso policial. Neste caso, é preciso haver mudança de mentalidade na sociedade, o que é mais difícil e leva mais tempo. Agora, novo esforço está sendo feito em comunidades pobres de negros e latinos para fazer com que os policiais sejam respeitados nessas áreas em que os níveis de tensão racial são mais elevados.
O que fazer para reduzir a corrupção na polícia?
HUNG-EN SUNG: Este é um grande desafio. A tarefa depende da extensão da corrupção na força policial. Nos casos mais graves, como aconteceu em Hong Kong, em que toda a força policial estava contaminada, é preciso haver uma forte intervenção de uma força exterior: a polícia britânica criou uma força especial de agentes para investigar os crimes e aos poucos esta força substituiu a policia local, até que os casos de corrupção acabassem. Noutros casos, é preciso dar força aos promotores que investigam policiais, e aos jornalistas que se aventuram por reportagens investigativas na área de crimes. Promotores e jornalistas podem ajudar muito. Sem uma fiscalização externa e transparência, não há policia confiável.
JUNTOS SOMOS FORTES!
PAULO RICARDO PAÚL
CORONEL DE POLÍCIA
CORONEL BARBONO